Vou ser direto. Tem quatro julgamentos rolando no STJ agora que quase ninguém está comentando, e os quatro mexem exatamente com o bolso de quem já está afundado. Eu trabalho com isso todo dia e a coincidência de todos andarem pro mesmo lado é difícil de engolir.
Pensa comigo: quem tem dinheiro pra bancar escritório grande, parecer de professor renomado e entrar como “parte interessada” lá em Brasília? Não é o aposentado que teve 80 reais descontados sem autorização. É o outro lado. E os quatro temas abaixo, por acaso ou não, melhoram a vida desse outro lado.
Tema 1.396 vai decidir se você, antes de processar uma empresa, precisa primeiro tentar resolver direto com ela. Parece até razoável, né? Até você lembrar quem ganha tempo com isso. É mais um guichê na frente de quem já foi lesado. E fila, todo mundo sabe, favorece quem pode esperar. O banco pode esperar tranquilo. Você, com o desconto caindo todo mês, não.
Tema 1.378 vai dizer se a taxa média do Banco Central, sozinha, basta pra provar que um juro é abusivo. Hoje dá pra pegar a taxa do seu contrato, comparar com a média do Bacen e mostrar que está lá nas alturas. Se o STJ decidir que isso não basta, revisar um empréstimo abusivo vira um inferno: você vai ter que provar as tais “peculiaridades do caso concreto”, o que na prática significa perícia cara e processo muito mais longo. Tradução: muito menos gente conseguindo derrubar juro abusivo na Justiça.
Tema 1.414 travou no Brasil inteiro os processos sobre cartão de crédito consignado, o famoso RMC/RCC. Aquele produto que te vendem como “empréstimo simples” e que na verdade é um cartão onde o desconto mensal só paga juros e a dívida nunca acaba. Os processos estão todos parados, esperando o STJ bater o martelo. E enquanto isso? O desconto não para. A pessoa continua pagando todo mês. A demora aqui não é neutra. Ela trabalha pra quem está recebendo.
Tema 1.435 vai decidir se desconto indevido no benefício gera dano moral. Lê de novo com calma: o idoso que teve a aposentadoria saqueada vai ter que PROVAR que aquilo causou sofrimento. Como se sumir com o dinheiro da comida e do remédio de quem vive de um salário fosse um aborrecimento qualquer, desses de fila de banco. E o pior é que a tendência das turmas do STJ já vinha sendo justamente a de exigir essa prova.
Junta tudo numa frase só. Mais barreira pra entrar na Justiça, mais difícil provar juro abusivo, processos de cartão consignado congelados enquanto o desconto continua caindo, e o saque na aposentadoria de idoso virando “ah, mas prova que você sofreu”.
Não estou aqui dizendo que tem ministro comprado, que fique claro. Estou dizendo uma coisa mais chata de explicar e bem mais difícil de combater: o lado que tem dinheiro paga os melhores advogados, financia os pareceres, senta na mesa como “amigo da corte” e vai empurrando, tema por tema, o sistema inteiro pro lado dele. Isso tem nome. O nome é lobby. E está funcionando.
O Brasil tem mais da metade dos adultos com o nome sujo ou no aperto. Se esses quatro andarem do jeito que o dinheiro quer, vai ficar ainda mais difícil pra pessoa comum tirar do banco aquilo que é dela por direito.