Reeleito, o governo terá de desarmar, em nome próprio, as engrenagens fiscais, tributárias, trabalhistas e energéticas que montou. Nada amadurece mais uma democracia.
Na história política e econômica da América Latina, poucos fenômenos são tão pedagógicos quanto a coincidência entre a autoria de um ciclo expansionista e a colheita de suas consequências. Em 25 de outubro de 2026, o [Tribunal Superior Eleitoral proclamou](https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026) a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. Dos mais de 158 milhões de eleitores aptos, 128,2 milhões compareceram; a abstenção, em torno de 19,2%, ficou abaixo dos 21,08% do primeiro turno. No mesmo domingo, seis estados elegeram seus governadores.
O dado decisivo, porém, não é quem venceu, mas o que a continuidade torna impossível. Sob a ótica da ortodoxia macroeconômica, ela produz um efeito que nenhum programa de governo anuncia: impede a transferência conveniente do ônus de um ajuste inevitável a um sucessor de oposição. O grupo que governou de 2023 a 2026 governará de 2027 a 2030. Herdará de si mesmo.
Ao longo deste ciclo, ergueu-se uma arquitetura econômica apoiada em cinco vigas: a expansão da despesa obrigatória e da dívida; um crescimento puxado pelo consumo, sem ganho correspondente de produtividade; a transição para uma tributação do consumo cuja alíquota-padrão tende a figurar entre as mais altas do mundo; o encarecimento constitucional da hora trabalhada; e preços de combustíveis contidos com dinheiro público até a véspera da votação. Os defensores do governo exibem conquistas reais, sociais e trabalhistas, e elas não são irrelevantes. A contabilidade nacional, porém, registra ao lado delas engrenagens sob severa fadiga. Examinar cada viga esclarece por que o próximo quadriênio será o laboratório definitivo da responsabilidade sobre as escolhas feitas até aqui.
**1. A aritmética implacável da dívida**
O alicerce de toda instabilidade macroeconômica brasileira está nas contas públicas, e os números oficiais dispensam adjetivos. Segundo a [nota de Estatísticas Fiscais do Banco Central](https://static.poder360.com.br/uploads/2026/09/estatisticas-fiscais-BC-agosto2026.pdf) de 30 de setembro, a dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026: R$ 11,1 trilhões. Em dezembro de 2022, [era de 71,7%](https://diariodocomercio.com.br/financas/divida-bruta-brasil-agosto/). São mais de onze pontos do PIB acrescentados em um único mandato — e em anos de crescimento, não de recessão.
A anatomia do avanço é eloquente. Em 2026, a dívida subiu 4,2 pontos do PIB: os juros nominais acrescentaram 6,5 e as emissões líquidas, 1,5, enquanto o crescimento do PIB nominal devolveu 3,6. Nos doze meses até agosto, o setor público consolidado apropriou R$ 1,18 trilhão em juros — 8,86% do PIB, contra 7,61% um ano antes — e acumulou déficit nominal de 9,48% do PIB. A dívida já não cresce pelo que o Estado gasta hoje, mas pelo que custa carregar o que gastou ontem.
As expectativas não são melhores. O [Prisma Fiscal de outubro](https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/outubro/prisma-fiscal-eleva-projecao-de-deficit-para-2026-e-reduz-estimativa-para-2027) — mediana das projeções de mercado coletadas pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda — aponta déficit primário de R$ 53,0 bilhões em 2026 e de R$ 44,0 bilhões em 2027. A dívida bruta chegaria a 83,4% do PIB ao fim deste ano e a 87,0% no próximo, quando a despesa total do Governo Central deve alcançar R$ 2,793 trilhões.
O contraste com o discurso oficial é instrutivo. A [Mensagem Presidencial do PLOA 2027](https://www.gov.br/planejamento/pt-br/assuntos/orcamento/orcamentos-anuais/2027/ploa-2027/mensagem-presidencial.pdf/@@display-file/file) projeta superávit primário de R$ 18,6 bilhões antes das compensações legais e de R$ 83,4 bilhões depois de abater R$ 64,6 bilhões, sobretudo em precatórios — o bastante para declarar cumprida a meta de 0,50% do PIB. Entre o superávit que o governo promete e o déficit que o mercado espera há mais de R$ 60 bilhões. Essa é a medida contábil da credibilidade fiscal.
O próprio documento confessa a doença que não trata: mais de 90% das despesas primárias são obrigatórias, o que, em suas palavras, “vulnerabiliza a sustentabilidade fiscal”. O marco orçamentário de médio prazo que o acompanha mostra o espaço discricionário do Executivo encolhendo de R$ 222,1 bilhões em 2027 para R$ 208,4 bilhões em 2028, abaixo do necessário para manter as políticas vigentes — e aponta, ele mesmo, a necessidade de revisão de gastos. A conta foi reconhecida por escrito; falta quem a pague.
O custo transborda para a política monetária. Mesmo após cinco cortes consecutivos desde março, a Selic está em 13,75% ao ano. O [Relatório Focus de 26 de outubro](https://br.advfn.com/jornal/2026/10/boletim-focus-mantem-selic-em-13-25-e-reduz-projecoes-para-pib-de-2026) projeta 13,25% no fim de 2026 e 11,75% no fim de 2027, com inflação de 5,19% neste ano, acima do teto de 4,5% da meta. Descontada a inflação esperada para 2027, em torno de 4,3%, o juro real ex ante beira 9% ao ano — e a Mensagem admite que, já em 2025, ele atingira o maior nível da década. O Estado absorve parcela crescente da poupança nacional para rolar a própria dívida e encarece o capital de quem produz.
**2. O esgotamento da economia produtiva**
A narrativa oficial apoia-se na resiliência. O [Monitor do PIB da FGV](https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-08/fgv-estima-que-pib-desacelerou-e-cresceu-03-no-segundo-trimestre) registrou, entre abril e junho, o vigésimo resultado trimestral positivo consecutivo. Mas o número cheio esconde a anatomia — e é a anatomia que decide.
As [Contas Nacionais do IBGE](https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202609/pib-cresce-0-5-no-segundo-trimestre-aponta-ibge) mostram desaceleração de 1,1% no primeiro trimestre para 0,5% no segundo. O motor do modelo engasgou: o consumo das famílias recuou 0,4% na margem, sob o peso dos juros e do endividamento, enquanto o consumo do governo seguiu crescendo. Na comparação anual, o gasto do governo avançou 3,1%; o das famílias, 0,5%. Quando o Estado consome seis vezes mais depressa que o cidadão, o dinamismo já não vem do bolso de quem compra, mas do orçamento de quem tributa.
O lado da oferta conta a mesma história. Sobre o segundo trimestre de 2025, a agropecuária cresceu 6,8% e a indústria extrativa, 12,0%, puxada por petróleo e gás; a indústria de transformação encolheu 0,9% e acumula queda de 1,1% em quatro trimestres. O país cresce quando a terra e o subsolo colaboram, não quando a fábrica produz.
Parte do fôlego da demanda escoa para fora. As importações subiram 5,5% na comparação anual, contra 3,8% das exportações, com veículos, vestuário e materiais elétricos à frente da pauta. E o investimento, que deveria ampliar a capacidade instalada, não acompanha: a taxa de investimento caiu para 16,1% do PIB, abaixo dos 16,6% de um ano antes, e a formação bruta de capital fixo recuou 0,2% em quatro trimestres. A alta recente veio de bens de capital importados e de software.
Quando uma economia estimula a demanda sem expandir na mesma proporção a capacidade de produzir, o desfecho é conhecido: pressão sobre os preços de serviços, deterioração da conta externa e um banco central obrigado a manter os juros altos por mais tempo. A própria Mensagem do PLOA 2027 aponta a isenção do imposto de renda para as faixas de menor renda e a expansão do consignado privado como sustentáculos da demanda — e admite que o segundo trimestre já exibiu, com mais nitidez, os efeitos contracionistas dos juros. O estímulo e o freio foram acionados ao mesmo tempo, e quem paga a fricção é o investimento.
**3. Reforma tributária e a sombra do maior IVA do mundo**
Concebida sob a promessa legítima de simplificar o sistema, extinguir a cumulatividade e encerrar a guerra fiscal pela tributação no destino, a reforma do consumo atravessou 2026 em fase de teste (art. 125 do ADCT): CBS a 0,9% e IBS a 0,1%, destacados em nota sem cobrança efetiva. Em 2027 a transição deixa de ser tecnológica. Pelo art. 126 do ADCT, incluído pela EC 132/2023, a CBS passa a ser cobrada, PIS e Cofins são extintos e estreia o Imposto Seletivo. O PLOA 2027 já conta com R$ 636,8 bilhões de CBS e R$ 42,0 bilhões de Seletivo.
A pouco mais de dois meses da virada, porém, ninguém conhece a alíquota. A Receita enviou ao TCU apenas o [modelo de cálculo](https://apet.org.br/noticia/tcu-comeca-a-calcular-aliquota-da-cbs-para-2027/); o tribunal tem até 30 de outubro para remeter o número ao Senado, que deve fixá-lo até 15 de dezembro — prazos esticados excepcionalmente em 45 dias para atravessar a eleição. As empresas terão dias, não meses, para reprecificar contratos, sob uma dispensa de noventena cuja constitucionalidade já é contestada.
O número que vier não será pequeno. A exigência de neutralidade arrecadatória de um Estado que arrecada muito, somada à proliferação de regimes diferenciados, produziu a distorção mais conhecida da reforma. A estimativa inicial da Fazenda era de 26,5%; à medida que o Congresso multiplicou exceções, as projeções oficiais migraram para perto de 28%. A [Resolução CGIBS nº 14/2026](https://www.cgibs.gov.br/upload/arquivos/202607/31144942-resoluc-ao-cgibs-n-14-de-29-de-julho-de-2026-proposta-percentual-ibs-cgibs-2027.pdf) adotou, para as próprias contas do Comitê Gestor, alíquota-padrão conjunta de 27,91%. A Hungria, dona do [maior IVA da OCDE](https://apet.org.br/noticia/reforma-tributaria-brasil-tera-segundo-maior-iva-do-mundo-com-aliquota-de-265/), cobra 27%.
A célebre “trava” de 26,5% não trava. O [art. 475, § 11, da LC 214/2025](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp214.htm) apenas obriga o Executivo, ouvido o Comitê Gestor, a enviar projeto de lei complementar propondo medidas que reconduzam a soma das alíquotas de referência estimadas a 26,5% — e só depois da primeira avaliação quinquenal, feita com dados de 2030. É um dever de propor, não um teto; a palavra final continua com o mesmo Congresso que criou as exceções.
No longo prazo, a indústria tende a ganhar com a não cumulatividade plena e o split payment. O setor de serviços — maior empregador urbano do país, de cadeias curtas e poucos insumos a creditar — está do outro lado da balança. Um prestador do lucro presumido que hoje recolhe 3,65% de PIS/Cofins cumulativos e de 2% a 5% de ISS migrará, ao fim da transição, para uma alíquota nominal próxima de 28% sobre o que agrega, ressalvados os regimes reduzidos e o Simples Nacional. E, até a extinção de ICMS e ISS em 2033, as empresas conviverão com dois sistemas simultâneos, pagando custo de conformidade dobrado justamente quando o crédito segue caro.
**4. O fim da escala 6x1: choque de custos por emenda constitucional**
Se o tripé formado por risco fiscal, investimento baixo e transição tributária já compunha um cenário delicado, o calendário eleitoral acrescentou um choque de oferta. Em 16 de outubro de 2026, nove dias antes do segundo turno, o Congresso promulgou em sessão solene, com a presença do presidente da República, a [Emenda Constitucional nº 141](https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/10/16/congresso-promulga-o-fim-da-escala-6x1-e-aposentadoria-de-agentes-de-saude). O texto aboliu a escala 6x1, assegurou dois dias de repouso semanal remunerado e reduziu o teto da jornada de 44 para 42 horas dois meses após a publicação — em meados de dezembro — e para 40 horas um ano depois, vedada a redução salarial. Aprovada no Senado por 75 votos a 1, a medida tem pais em todos os partidos; mas foi o governo que dela fez [bandeira da reeleição.](https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/3-em-cada-10-empregos-formais-tem-escala-6x1-no-brasil-diz-estudo/)
O alcance social é inegável. Segundo o Ministério do Trabalho, cerca de 14,9 milhões de trabalhadores — um terço dos que têm jornada identificada — cumprem hoje a 6x1, e 37,2 milhões cumprem jornada de 44 horas. O descanso adicional alivia o desgaste de quem trabalha no comércio, no alojamento e nos transportes, e é legítimo que uma democracia o deseje. A ciência econômica, porém, distingue desejo normativo de capacidade material: nas economias maduras, a redução secular da jornada foi consequência — e não causa — da acumulação de capital e do ganho de produtividade por hora trabalhada.
A aritmética não negocia. Mantido o salário mensal, a hora normal de quem trabalha 44 horas encarece 4,8% quando o teto cai para 42 (44 ÷ 42) e 10% quando chega a 40 (44 ÷ 40); a hora extra, calculada sobre ela, acompanha. Para atividades de operação contínua — bares, restaurantes, hotéis, hospitais, pequeno varejo —, o segundo dia de folga obriga a redesenhar escalas e contratar reforços sem capital barato para automatizar. Restam três saídas: repassar aos preços, alimentando a inflação de serviços; comprimir margens; ou empurrar vagas para contratos parciais e para a informalidade.
A objeção mais séria merece resposta à altura. O [estudo de Gonzaga, Menezes-Filho e Camargo](https://www.econ.puc-rio.br/uploads/adm/trabalhos/files/td458.pdf) sobre a redução de 48 para 44 horas na Constituinte de 1988 não encontrou efeito negativo sobre o emprego em doze meses, e o salário-hora dos afetados subiu. [Naercio Menezes Filho](https://iepecdg.com.br/wp-content/uploads/2026/02/260220Naercio.pdf) atribui o resultado ao poder de monopsônio das grandes firmas e cita estimativa do Ipea de alta média de 7% no custo do trabalho — no máximo 3% do custo total para a maioria das empresas. Há ainda a distância entre contrato e realidade: 73,8% dos celetistas tinham contrato de 41 a 44 horas em 2025, mas apenas 35,8% trabalhavam efetivamente essa carga no início de 2026.
O argumento é forte, e justamente por isso suas fronteiras importam. A evidência de 1988 mede um ano, não uma década; e o mecanismo que a explica é atributo das grandes empresas, enquanto a 6x1 pesa mais nas pequenas — 34,5% dos vínculos nas microempresas e 36,2% nas pequenas, contra 32,9% nas médias e grandes. A própria emenda reconhece o ponto ao prever lei complementar com medidas de adaptação para microempreendedores, micro e pequenas empresas. E o choque chega com o [desemprego em 5,3%](https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html), perto da mínima histórica: em mercado apertado, quem precisa cobrir o turno vago disputa trabalhadores que já não sobram. A conta tem dois endereços possíveis — o preço do serviço e o emprego formal —, e ambos serão apresentados a quem fez da promessa bandeira.
**5. A bomba-relógio dos combustíveis**
A peça mais explosiva do tabuleiro foi armada nas semanas que antecederam a votação. Com o conflito no Oriente Médio estrangulando a oferta — o fluxo de petróleo pela região de Ormuz [caiu de mais de 20 para cerca de 8,5 milhões de barris por dia](https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/precos-petroleo-20-outubro-2026/) em meados de outubro — e o Brent de volta à faixa dos US$ 100, após picos acima de US$ 110, o governo recorreu a uma escalada de subvenções com prazo de validade.
A [MP 1.391/2026](https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/09/14/medida-provisoria-estende-subsidio-para-baratear-diesel), de 11 de setembro — quinta medida provisória do ano sobre o tema, num total de R$ 27,4 bilhões autorizados em 2026 —, passou a permitir subvenções ao diesel em ciclos de até 30 dias, com valor fixado por ato do ministro da Fazenda. Em 13 de outubro, [portaria anunciada pelo Ministério de Minas e Energia](https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202610/governo-federal-prorroga-desoneracao-da-gasolina-e-do-etanol) somou R$ 1,40 por litro aos R$ 2,12 já pagos aos importadores: R$ 3,52 de dinheiro público por litro, ao custo estimado de R$ 1,6 bilhão a cada 30 dias. Dias antes, decreto prorrogara a desoneração integral de PIS/Cofins e Cide sobre a gasolina — agora de R$ 0,89 por litro — e ampliara a subvenção ao etanol. O próprio governo descreveu as medidas como temporárias e válidas apenas para 2026.
Como cerca de um terço do diesel consumido no país é importado, segundo o mesmo ministério, a barragem logo mostrou fissuras. Três dias antes do segundo turno, a [defasagem do diesel](https://mercadoeconsumo.com.br/23/10/2026/economia/defasagem-do-diesel-nas-refinarias-da-petrobras-ultrapassa-subvencao-e-atinge-r-353-l/) nas refinarias da Petrobras chegou a R$ 3,53 por litro, superando pela primeira vez a subvenção de R$ 3,52, segundo a Abicom — a associação dos importadores, parte interessada na conta. O diesel da estatal estava havia 145 dias sem reajuste. Um [relatório do Goldman Sachs](https://www.infomoney.com.br/mercados/petrobras-petr3-petr4-pode-ter-subir-diesel-ate-cinquenta-porcento-goldman-sachs-quais-impactos-acoes-inflacao/) estima que, mesmo com os subsídios, o preço realizado pela estatal está 21% abaixo da paridade de importação; se a assimetria entre produtores e importadores acabar, o reajuste às distribuidoras teria de ser de cerca de 50%, algo como 20% nas bombas e de 21 a 24 pontos-base no IPCA, somados efeitos diretos e indiretos. O próprio banco, registre-se, trabalha no cenário-base com preços estáveis até o fim do ano.
Passada a eleição — e com o Conselho de Administração da Petrobras convocado para avaliar os preços no dia seguinte às urnas —, o governo reeleito encara uma escolha sem saída indolor:
**Renovar e ampliar os subsídios em 2027**, drenando bilhões do Tesouro para sustentar um barril acima de US$ 100 num orçamento cuja meta já depende de compensações. O governo responde que as receitas extraordinárias do petróleo bancam a conta; mas receita extraordinária é, por definição, transitória, e subsídio criado em ano eleitoral raramente morre no seguinte.
**Segurar os preços no balanço da Petrobras**, vendendo abaixo da paridade sem subvenção plena, deteriorando o caixa da estatal e afastando os importadores privados de que o país depende para cobrir o terço importado da demanda — com risco físico de desabastecimento regional.
**Liberar o reajuste reprimido**, colhendo uma onda secundária de inflação no frete e nos alimentos, retardando o ciclo de cortes da Selic e ressuscitando o fantasma das paralisações de caminhoneiros.
**O fim do álibi**
A tese de que a conta sempre chega encontra nessa convergência o seu sentido institucional mais profundo. Houvesse alternância de poder em janeiro de 2027, um novo governante herdaria de uma só vez uma dívida bruta a caminho de 87% do PIB, um orçamento com mais de 90% de despesas obrigatórias, a estreia da CBS com alíquota fixada às pressas, o encarecimento constitucional da hora trabalhada e um barril de pólvora nos preços do diesel e da gasolina. Qualquer medida amarga — o realinhamento dos combustíveis, o corte de despesas, o freio na atividade — seria instantaneamente rotulada de choque neoliberal de quem chegou, e o mito de que o modelo anterior era autossustentável sairia intacto.
O país já viu esse filme e sabe como ele termina. Reeleito em 2014 com preços administrados represados, o mesmo campo político entregou em 2015 o realismo tarifário: a energia elétrica subiu 51%, a gasolina 20%, e o [IPCA fechou o ano em 10,67%](https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/en/agencia-press-room/2185-news-agency/releases-en/15625-in-december-ipca-stays-at-0-96-and-closes-2015-at-10-67), o maior desde 2002, enquanto a economia mergulhava na recessão. A diferença, agora, é que ninguém poderá alegar surpresa: a conta está escrita nas estatísticas do Banco Central, na Mensagem do próprio orçamento e no texto da Constituição emendada.
Com a continuidade selada nas urnas, elimina-se o álibi da herança maldita alheia. Caberá ao próprio artífice da engrenagem desarmar os artefatos fiscais, trabalhistas e energéticos que ajudou a montar — seja promovendo a revisão estrutural de gastos que sua própria Mensagem orçamentária já reconhece necessária e assumindo o desgaste do realismo tarifário, seja assistindo à corrosão da renda real dos mais pobres pela inflação e pelos juros. Não existe terceira via contábil.
Na macroeconomia, subsídios e prazos de carência podem durar até o domingo da eleição; a fatura, não. Ela não prescreve, não se transfere e não aceita álibi. Nada amadurece mais uma democracia do que exigir que os autores das promessas assinem, em nome próprio, o balanço de seus resultados.
**Fontes primárias**
Dados observados (TSE, Banco Central, IBGE, atos normativos) são afirmados; projeções de mercado (Prisma Fiscal, Focus) e estimativas de terceiros (Abicom, Goldman Sachs, Ipea, 4intelligence) aparecem atribuídas no texto. Informações disponíveis até 26 de outubro de 2026.
**Abertura**
[TSE — balanço do 2º turno das Eleições 2026](https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026)
**1. Dívida**
[Banco Central — Estatísticas Fiscais, nota à imprensa de 30/9/2026 (PDF)](https://static.poder360.com.br/uploads/2026/09/estatisticas-fiscais-BC-agosto2026.pdf)
[Ministério da Fazenda/SPE — Prisma Fiscal de outubro de 2026](https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/outubro/prisma-fiscal-eleva-projecao-de-deficit-para-2026-e-reduz-estimativa-para-2027)
[Ministério do Planejamento e Orçamento — Mensagem Presidencial do PLOA 2027](https://www.gov.br/planejamento/pt-br/assuntos/orcamento/orcamentos-anuais/2027/ploa-2027/mensagem-presidencial.pdf/@@display-file/file)
[Relatório Focus de 26/10/2026 (via ADVFN)](https://br.advfn.com/jornal/2026/10/boletim-focus-mantem-selic-em-13-25-e-reduz-projecoes-para-pib-de-2026)
[Folhapress — dívida bruta em dezembro de 2022](https://diariodocomercio.com.br/financas/divida-bruta-brasil-agosto/)
**2. Atividade**
[IBGE — Contas Nacionais Trimestrais, 2º trimestre de 2026 (via Agência Gov)](https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202609/pib-cresce-0-5-no-segundo-trimestre-aponta-ibge)
[FGV IBRE — Monitor do PIB de junho de 2026 (via Agência Brasil)](https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-08/fgv-estima-que-pib-desacelerou-e-cresceu-03-no-segundo-trimestre)
**3. Reforma tributária**
[Lei Complementar nº 214/2025 — texto compilado (Planalto)](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp214.htm)
[Resolução CGIBS nº 14/2026 (PDF)](https://www.cgibs.gov.br/upload/arquivos/202607/31144942-resoluc-ao-cgibs-n-14-de-29-de-julho-de-2026-proposta-percentual-ibs-cgibs-2027.pdf)
[Valor/APET — cronograma TCU–Senado da alíquota da CBS de 2027](https://apet.org.br/noticia/tcu-comeca-a-calcular-aliquota-da-cbs-para-2027/)
[APET — maiores alíquotas de IVA da OCDE](https://apet.org.br/noticia/reforma-tributaria-brasil-tera-segundo-maior-iva-do-mundo-com-aliquota-de-265/)
**4. Escala 6x1**
[Agência Senado — promulgação da EC 141/2026](https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/10/16/congresso-promulga-o-fim-da-escala-6x1-e-aposentadoria-de-agentes-de-saude)
[Folhapress — dados do MTE analisados pela 4intelligence](https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/3-em-cada-10-empregos-formais-tem-escala-6x1-no-brasil-diz-estudo/)
[Gonzaga, Menezes-Filho e Camargo — redução de 48 para 44 horas em 1988 (PUC-Rio, TD 458)](https://www.econ.puc-rio.br/uploads/adm/trabalhos/files/td458.pdf)
[Naercio Menezes Filho — Os efeitos da redução da jornada (fev. 2026)](https://iepecdg.com.br/wp-content/uploads/2026/02/260220Naercio.pdf)
[IBGE — PNAD Contínua](https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html)
**5. Combustíveis**
[Agência Senado — MP 1.391/2026](https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/09/14/medida-provisoria-estende-subsidio-para-baratear-diesel)
[Agência Gov/MME — subvenção adicional ao diesel e desoneração da gasolina](https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202610/governo-federal-prorroga-desoneracao-da-gasolina-e-do-etanol)
[Estadão Conteúdo — defasagem calculada pela Abicom](https://mercadoeconsumo.com.br/23/10/2026/economia/defasagem-do-diesel-nas-refinarias-da-petrobras-ultrapassa-subvencao-e-atinge-r-353-l/)
[InfoMoney — relatório do Goldman Sachs sobre o diesel](https://www.infomoney.com.br/mercados/petrobras-petr3-petr4-pode-ter-subir-diesel-ate-cinquenta-porcento-goldman-sachs-quais-impactos-acoes-inflacao/)
[CNN Brasil — petróleo e fluxo em Ormuz, 20/10/2026](https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/precos-petroleo-20-outubro-2026/)
[BPMoney — Brent volta a US$ 110, 16/10/2026](https://bpmoney.com.br/mercado/commodities/petroleo-brent-supera-us-110-primeira-vez-desde-maio/)
**Conclusão**
[IBGE — IPCA de 2015](https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/en/agencia-press-room/2185-news-agency/releases-en/15625-in-december-ipca-stays-at-0-96-and-closes-2015-at-10-67)